19 de mar de 2009

City Lights - parte 2

Incerta de onde estava, continuava correndo. Sabia do erro fatal. Não era culpa dela. Não iria resumir sua vida a isso.

- Mel? Não deu certo, Mel. Não deu certo e você precisa me ajudar.

Não precisava olhar para saber de quem era a voz. E nem iria. Ela fora enganada. Sim, enganada. E a mulher que cuidasse disso sozinha.
Então por que continuava correndo?

A porta à frente parecia ser sua salvação. Escancarou-a e adentrou ao cômodo, sobressaltando-se quando esta bateu com toda a força. Tanto melhor se estivesse trancada.

- Hey

- Oi, desculpa, eu achei que estivesse sozinha...

- A gente se conhece?

Sim, eles se conheciam. Claro que se conheciam. Ela reconhecia sua voz, seu cheiro, seu toque preocupado em seu ombro. Abriu a boca, mas não conseguiu pronunciar o nome dele.

- Achei que não. Mas então, o que aconteceu com você?

Ele sabia. Ela sabia que ele sabia. Por que estava perguntando?
No momento seguinte, a porta se abre, e o ambiente passa de escuro a excessivamente iluminado. A mulher entra.

- Ora, vamos, garota! Não seja irresponsável!

Ela tentava argumentar, mas sua voz não saía. A luz a estava irritando pela primeira vez.
Ele entendia. Ela podia ver em seus olhos. Ele já sabia. De novo.

- Droga, Mel... Eu não posso fazer isso...

Ela sabia que a sala iria se escurecer, mas dessa vez ela ficaria sozinha. Sabia que suas pernas não aguentaria seu peso, por isso sentou.

- Não... Por favor, não! Precisa ter outro jeito, a gente vai descobrir...

Ela precisava ir atrás dele. Não sabia como seguir, só sabia que não podia fazê-lo sozinha. Ela precisava se levantar...



- AI! Inferno de cama...
Mel levantou-se da cama, com cuidado para não bater a cabeça de novo na prateleira logo acima. Enquanto dobrava o pesado edredom, pesava se conseguiria dormir um único dia sem acordar com a pancada contra aquele maldito negócio de madeira.
"Talvez meu pai possa tirá-lo depois..." pensou.

Sentou-se na ponta da cama, não podendo mais evitar pensar no sonho. Tomando uma decisão, foi para a sala pegar o telefone. Sabia que seu pai não estaria em casa antes do almoço.

Já discara aquele número tantas vezes, não fazia sentido hesitar agora. Ou pelo menos era o que ela argumentava para si.

tu...
Ele não ficaria bravo... Ela tinha certeza que ele também sentia falta dela.
tu...
E se ele também sonhasse com isso? Não seria estranho, tratando-se deles...
tu...

- Oi? - foi uma voz feminina que atendeu.

"Ah, merda!"


- Ah... oi, será que o Mateus tá por aí? Ah, aqui é a Melinda... Tá, espero sim.

Com certeza a mãe dele não ficara sabendo de nada. Não, claro que não, ele tinha prometido não falar...

- Mel?

- Ma... Mateus, oi. Eu... Senti saudade. Queria falar com você. Sabe, obrigada... Sabe, pelo bilhete...

- Hm, de nada... Mesmo que você não esteja fazendo o que eu pedi.

Melinda ficou em silêncio. Nunca sabia o que falar quando ele dizia exatamente o que ela tentava esconder. E ele tinha esse péssimo hábito.

- Mel... Eu te conheço. Me fala, aconteceu alguma coisa?

- Matt, eu não consigo. É a terceira noite seguida que eu sonho com você e com aquela mulher e tudo sempre fica escuro! E não tem luzes na minha janela aqui...

Foi a vez de ele ficar em silêncio, do outro lado da linha. Ela sabia que ele estava pensando, por isso também não falou.

- Você... Tá sozinha aí?

- Uhum. Papai costuma voltar perto da hora do almoço, só.

- Hm. Inclusive amanhã?

- Bom, sim... Matt, o que você vai fazer?

- Então, me encontra. Amanhã, nessa hora... Bom, eu tenho seu endereço, eu apareço aí.

- Mas Matt, espera, eu..

- Tchau, Mel.

- ...posso ir aí. - Ela terminou de falar, para o telefone que respondia com frios "tu... tu... tu...".


Colocou-o no gancho, e foi para seu computador. Não poderia negar que estava muito feliz pelo dia seguinte. E ligeiramente nervosa.

"Seguir em frente... Quem diria que o algum dia seria tão logo?"
Sorriu para si com o pensamento.


continua.