12 de dez de 2008

Capitu


Do mesmo modo como eu não vou ao cinema com um pé atrás porque o filme a ser assistido ganhou um óscar, nem deixo de ler livros porque são best-sellers ou julgo um artigo jornalístico ruim antes de lê-lo só porque este foi publicado na Veja, é claro que eu não faria qualquer pré-julgamento sobre a minissérie baseada no livro de Machado de Assis só porque esta seria exibida pela rede globo.


Desde a primeira chamada, "Capitu" me chamou a atenção. A proposta artística me pareceu muito boa. De fato, logo no primeiro capítulo, já foi perceptível que o diretor optou por manter o relato na voz do próprio Dom Casmurro, mantendo também seu tom introspectivo, por vezes irregular, crítico e claramente unilateral.


Confesso que, quando li o livro, em nenhum momento me veio à cabeça personagens tão caricaturados. Mas obras audiovisuais normalmente primam pelo exageiro em relação às literarias, pois é a forma mais segura de garantir que a expressão do livro seja passada adiante. Particularmente, eu achei o recurso bastante condizente com a proposta do diretor. Pode não ter sido a melhor maneira de transmitir a fina ironia machadiana, mas foi uma saída válida.


Gostei muito da narração não primar pela verdade absoluta dos fatos, mas guiar-se pela perspectiva de Bentinho. Afinal, é isso que temos durante todo o livro.


A clara diferença entre bentinho adulto/bentinho jovem, os momentos em que os dois são postos juntos em cena, a divisão dos capítulos (sem que um comece necessariamente de onde o anterior parou) foram alguns pontos que eu achei muito bem trabalhados.


Quanto aos personagens, o Bentinho narrador, adulto, como eu já disse, fugiu às minhas expectativas. Mas na obra como um todo, ajudou a manter seu caráter irônico.

Em especial, a prima Justina e o Cônego Dias ficaram exatamente aquilo que eu imaginara dos dois. Para mim, as melhores caracterizações.


Não sei ainda como será o fim da minissérie, e como o diretor pretende mostrar a parte da traição - pois pra mim, ela em si é secundária. A história é sobre um homem confuso com suas percepções distorcidas, e não sobre uma traição. Mas não vamos esquecer que o nome da obra é "capitu", e não "Dom casmurro". Eu esperaria que, em algum momento, a narrativa fugisse um pouco ao livro, no sentido de entranhar-se na perspectiva de Capitu, o que eu acharia bastante interessante, mas não sei se ocorrerá.


De qualquer maneira, registro meus elogios até agora para os produtores de arte e para o diretor. De forma geral, estou gostando muito da minissérie. Aguardo pelos próximos dois capítulos.



(obs: não me perguntem o porquê dos olhos. Sempre tive fascínio pelos olhos da capitu, e essa foi uma boa imagem, ao meu ver.)

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